sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Os Cangaceiros de Verdade.

A
o me referir ao filme “Os Cangaceiros”, que no ano de 1953 foi levado às telas, algumas  lembranças relacionadas com essas figuras legendárias me vieram à memória. O épico nordestino mostrou Lampeão como um líder nato, justo com seus comandados, porém violento e insensível com os demais, aos quais aplicava suas próprias leis. Talvez no filme o tenham retratado muito mais fielmente do que se possa imaginar.
De fato Lampeão e seu bando levavam pavor aos ermos lugares dos sertões nordestinos, justificando a perseguição policial que lhe dedicaram os governos da maioria dos Estados daquela região.
O semi-árido sertão nordestino.
A caatinga predominante no sertão nordestino.

Para minha surpresa durante a fase jornalística de meu tio e sogro Luiz Nogueira Filho, com 25 anos, entre seus artigos publicados no “O Serrinhense”, jornal de sua cidade natal, havia um datado de 12 de abril de 1931 cuja manchete “Inacreditável Indiferença”, demonstra claramente o que representava Lampeão e sua gente para a população da região.Vamos acompanhar alguns trechos dessa reportagem feita por quem testemunhou tais acontecimentos naquela época.
     “Há poucas horas que estou em Queimadas e já posso auferir do pavor que assalta a sua pacata população, na iminência de sofrer a segunda investida do famigerado bando de Lampeão. Em poucos minutos que privei com alguns elementos representativos locais, senti a angústia que a todos domina com as notícias recebidas pelo delegado local cap. Antonio Ferreira de Araujo, transmitidas que foram por seu colega de Itiúba de que o bandido toma rumo desta vila.”
Em seguida Luiz descreve as providências de socorro que em vão são solicitadas ao governo da Bahia, resultando na manchete de seu artigo. Fica ainda mais claro o que se pensava do bando de Lampeão ao continuarmos a ler a reportagem.
     “Aproxima-se de uma localidade a horda de bandidos, o grupo de assassinos salteadores do século XX; a autoridade local, sem elementos para enfrentá-la apela para o Chefe de Polícia (...) e não consegue arrancar uma palavra de quem tem a obrigação de atendê-la em tão difícil situação.”
Refere-se aí o jovem repórter à solicitação do reforço de apenas nove homens armados a mais, já que regularmente essas cidades possuíam no máximo três policiais, além do delegado, para os ajudar no caso de enfrentamento com o bando de cangaceiros. Conclui o jornalista nato sua longa e indignada reportagem com a frase “...O Nordeste debate-se nas malhas de um crime sem precedentes, (...) enfrentando bandoleiros que zombam da polícia baiana, da mesma forma que os poderes estabelecidos zombam de seus constantes apelos e clamores.”

Lampeão (primeiro da esq.p/dir.) em Pombal - 1928

Em outro número desse mesmo periódico datado de 28 de dezembro de 1928, encontramos sob a manchete “Lampeão fazendo um raid automobilístico – suas declarações em Tucano” uma raríssima entrevista com Virgulino Ferreira, o Lampeão, tratado como “capitão”, na qual ele tenta explicar e até justificar a causa de sua marginalidade. Acompanhemos alguns trechos.
 
– Que idade tem o capitão?
- Tenho 28 anos de idade.
- Há quantos anos vive em luta?
- Há 14 anos.
- Quais os motivos que levaram o capitão a abraçar essa vida acidentada e perigosa?
- Questões de família e sobretudo o assassinato de meu pai. Meu pai não sabia manejar uma arma.
Possuía um criatório regular e isso despertou a cobiça de um vizinho nosso que não nos olhava com bons olhos. De uma feita quando meu pai reunia o gado foi atacado traiçoeiramente por esse vizinho. Assassinado meu pai fui para a companhia de um tio, que abandonei quando atingi a idade de 14 anos, para executar meu plano de vingança e de lá para cá não abandonei mais a vida do cangaço.”

Em outro trecho lhe é perguntado o porquê de haver se retirado de Pernambuco, ao que ele responde:

     “- Eu lhe conto. Em Pernambuco até as folhas das árvores são minhas inimigas. Lá, quando eu dormia ou descansava embaixo de uma árvore, sempre trazia uma bala na agulha de minha carabina receando que caísse sobre mim alguma “folha inimiga”. (...) Eu sei que esta vida não é lá muito boa, mas se tenho sofrido, em compensação, tenho gozado bastante. E o que é a vida? Sofrer e gozar.”

O município de Tucano é vizinho ao de Serrinha, terra dos Carneiro Ribeiro e dos Nogueira, conhecidos por sua retidão, valentia e destemor. Talvez por essa razão a última pergunta feita pelo repórter ao capitão Virgulino.
    
     “- O capitão não receia que uma força lhe ataque inesperadamente nesta vila?
       - Qual nada, em Serrinha o destacamento conta 9 praças e eles não virão até cá.”

Por alguma razão Virgulino, mesmo com seu bando em maior número, evitou entrar em Serrinha. Dando por encerrada a entrevista resta ao jornalista observar a retirada do bando e seu líder acomodados na carroceria de um caminhão que haviam “requisitado rodando pelas ruas desta vila entoando canções despreocupados, felizes, inteiramente alheios aos comentários da população que assistia a esse quadro inétido, como se fora um sonho irrealizável.” Palavras no repórter.
Uma outra entrevista julho de 1928 no jornal “O Povo”, trazia a seguinte manchete e chamada de primeira página: “A palavra de Lampeão – O monarca selvagem dos sertões” e complementava com a frase do chamado “jaguar bravio do nordeste” - “Não sou cangaceiro por maldade minha, mas pela maldade dos outros...” 
O Governo da Bahia na tentativa de conseguir conter Lampeão, chegou a publicar e distribuir anúncio de recompensa por sua captura, tal qual se fazia no velho oeste americano.

Recompensa de 50 contos de réis, pequena fortuna na época.

Grupo de Cangaceiros em Mossoró.

Há apenas uma contradição no filme, que assisti quando garoto, talvez para mostrar o cangaceiro como cowboy ao estilo americano, a grande quantidade de cavalos utilizados como montaria pelo grupo de Lampeão. Pela entrevista acima, o bando ao deixar a localidade em que se encontrava saiu sobre a carroceria de um velho caminhão, o que demonstra a ausência desses animais devido certamente à dificuldade em mantê-los, nessa região tão carente de pasto e água. Em nenhuma das fotos feitas por Benjamim Abraão, que se juntou ao bando para reportar e filmar com a permissão de seu líder, se vê tais montarias. No máximo em alguma oportunidade poderiam se valer de pequeno grupo de resistentes jegues, mas apenas para carregamento de mantimentos, um companheiro ou companheira adoentado além de outros apetrechos desses verdadeiros nômades sertanejos.

O fotógrafo confraternizando com Lampeão.

O pequeno e resistente jegue, típico animal de carga do nordeste.

A morte de Lampião não foi por acaso, ele foi vítima de uma manobra policial que deu certo entre tantas outras frustradas. Como não era fácil de ser encontrado, quem ajudasse de alguma forma para sua localização, era sustentado a peso de muito dinheiro e sabia muito bem que se fosse descoberto e delatado, ou se fracassasse na tentativa de sua captura, pagaria bem caro com a vida sua e de seus familiares. Desse modo a chamada “Volante”, grupo composto de quase trinta homens que perseguia os cangaceiros, comandado por um certo tenente Bezerra, da Força Alagoana, conseguiu por meio de informantes da região cercar o bando de cangaceiros já reduzido, por deserção ou morte, na madrugada de 28 de julho de 1938, num lugar denominado de “Grota de Anjicos” em Sergipe. Surpreendidos enquanto dormiam em mais um acampamento, onze cangaceiros foram mortos entre eles Lampeão e Maria Bonita. Os que conseguiram fugir se embrenharam na caatinga e viveram escondidos por vários anos. Alguns foram presos ou se entregaram à policia, outros mais tarde seriam descobertos já idosos e senis.

A volante, alguns soldados eram disfarçados de cangaceiros.

A Grota de Anjico, local onde dormiam e foram surpreendidos pela Volante.

Presos ou anistiados. Cobra Verde, Vinte e Cinco, Peitica, Maria Jovina,
Pancada, Vila Nova, Santa Cruz e Barreira, (advogado?)

Como havia a necessidade de se apresentar provas definitivas de que o bando havia sido dizimado, o tenente Bezerra ordenou que as cabeças dos mortos fossem decepadas e colocadas em latas com sal para serem transportadas com a finalidade de exibi-las em praça pública. Por fim foram mumificadas e mantidas em exibição pública por vários anos no museu Nina Rodrigues, no prédio que ocupava no Centro Histórico da Cidade do Salvador, próximo ao Pelourinho. Em 1967 estive por lá e pude visualizar essa terrível exibição.

De baixo para cima, Lampeão, Quinta-Feira, Maria Bonita e Luiz Pedro,
Mergulhão, Elétrico e Caixa de Fósforo, Enedina, Cajarana, não conhecido e Diferente)


Nos dias de hoje tais exemplares macabros já não mais são vistos. Longa demanda jurídica de descendentes dos onze cangaceiros mortos, conseguiram que fossem definitivamente sepultadas com alguma dignidade, como merece qualquer ser humano.

Caros seguidores e visitantes.
Como podem constatar, recebi uma informação do Sr. Everton Francisco que vem enriquecer nossa publicação com uma preciosa e rara imagem do grupo de cangaceiros em seus cavalos, o que achava ser apenas uma leitura cinematográfica dessa prática.

Como ele mesmo nos informa, da direita para a esquerda estão
o cangaceiro Ezequiel e marcado com uma cruz Lampeão.

Ainda há quem afirme que o chefe do bando teria se evadido do local do massacre momentos antes da invasão e até que, por motivos políticos, a notícia do fim do bando de Lampeão teria sido forjada para evitar o desgaste moral da força policial que os perseguia. Esta parece ser uma longa polêmica em torno do assunto, com alguns tentando fazer da figura de Lampeão um herói enquanto que documentalmente por meio de jornais da época, como na reportagem de Luiz Nogueira Filho, foi apenas um fora da lei quadrilheiro que roubava, matava e se arvorava de justiceiro.

Lampeão, Maria Bonita e seu bando de cangaceiros.

O tema Cangaceiros, Cangaço e o agreste do sertão, também serviu para que artistas nordestinos demonstrassem, cada um a seu modo e com o passar dos anos, a sua arte simples e expressiva.

Xilogavura de J. Miguel, famoso artista popular nordestino.

Bonecos de argila inspirados nos cangaceiros, arte inspirada nos
trabalhos de Mestre Vitalino.

Xilogravura para a literatura de cordel.

Arte modernista com o tema do cangaço de artista ignorado.

(Imagens e fotos de Benjamim Abraão no Google)
Caros seguidores e visitantes.
Como podem constatar nos comentários, o Sr. Everton Francisco nos esclarece acerca do uso de cavalos pelos cangaceiros. Como não havia encontrado referência a essa prática, imaginei que se tratava apenas de uma leitura cinematográfica a caravana que circulava pelo sertão. Para melhor ilustrar o que disse nos fornece uma rara e bonita imagem do grupo em seus cavalos.

Conforme nos informa o Sr. Everton, em suas montarias,
da direita para a esquerda estão, Ezequiel e Lampeão.

4 comentários:

  1. Adorei, muito boa essa sequência, os dois últimos "posts" ficaram interessantes!

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  2. Grato pela atenção "Presentation", gostaria de ter incluído aqui "O Cabra", mais recente HQ lançado com personagem cangaceiro, mas...

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  3. Blog maravilhoso... Mas, em relação aos cavalos, eles eram usados sim. Para passar de um estado para outro eles não eram usados... O próprio Volta Seca entrou para o bando de Lampião entrou como tratador de cavalos até ser promovido por merecimento. Olhe uma foto aqui dos cabras com os cavalos. (Da direita para a esquerda, vê-se Ezequiel e Lampião)

    http://2.bp.blogspot.com/_yqQjv5r0r8I/SjrUhCf1wXI/AAAAAAAAADc/Jt0JISJ8gaY/s320/lampi%C3%A3o+a+cavalo.jpg

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  4. Caro Everton Francisco, creio que além do prazer que me deu com a avaliação desta publicação em nosso blog, o enriquece ainda mais com essa informação. Realmente não havia até então encontrado nada que sugerisse o uso desses animais pelo cangaceiros, concluindo que se devia principalmente às dificuldades em alimentá-los e matar a sede. Creio que conhece muito bem a precariedade, nesses aspectos, dessa região. Peço sua licença para incluir essa imagem em nossa postagem, para compartilhá-la com nossos seguidores e visitantes.

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