sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Os "Voluntários da Pátria".

Sem

  a pretensão de dar a esse tema o aspecto de uma aula de história, mas tão  somente por achá-lo interessante e de certo modo pouco conhecido em alguns detalhes pela maioria dos brasileiros de um modo geral, o estou abordando.
Tampouco pretendo entrar no mérito das questões que levaram o nosso País a se unir com a Argentina e o Uruguai para se confrontar com o vizinho Paraguai, episódio sobre o qual apesar de existir uma versão oficial, há entre os estudiosos do assunto muita divergência. Uma coisa é certa, foi um dos conflitos armados que envolveu quatro países da América do Sul, até hoje considerado um dos mais violentos e que teria ceifado milhares de vidas de todos os lados.

Batalha do Riachuelo - a emboscada paraguaia que não deu  certo.

Corveta Parnahyba uma das embarcações utilizadas pelo Brasil.

De concreto sabemos que em quase todas as capitais e em muitos municípios do Brasil existe um logradouro, nem todos muito importantes, com esse nome, “Voluntários da Pátria”, mas tenho certeza de que poucos têm notícia de quem foram eles, como indivíduos, como pessoas. Na verdade, estou utilizando-me do tema como motivo para dar fisionomia a pelo menos um daqueles voluntários e seus irmãos.

Joaquim Sylvio Ribeiro - um Voluntário da Pátria.

No verso desta raríssima foto, com as condecorações por sua participação na Guerra do Paraguai encontramos a seguinte descrição redigida por um de seus filhos; “Joaquim Sylvio Ribeiro. Capitão Honorário do Exército. Assentou praça como 1º Cadete do 1º Regimento de Voluntários da Pátria a 31 de janeiro de 1875, seguindo para a guerra do Paraguai; a prova dos seus serviços traz sobre seu peito, e ocultas 5 cicatrizes por ferimentos recebidos em combate.”

As Medalhas recebidas por Joaquim Sylvio Ribeiro.

1- Medalha Imperial - por atos de heroismo e ferimentos sofridos em combate, razão da fita vermelha que a sustenta. 2 - Medalha Geral de Campanha - Em formato da Cruz de Malta, teria sido cunhada em bronze dos canhões tomados dos paraguaios, a fita representa a Tríplice Aliança. 3-Medalha da Campanha do Uruguai - Em prata com a efígie de D. Pedro II na frente e no reverso uma coroa Imperial com a inscrição "Campanha do Uruguai-1865". 4 - Medalha Sol de Prata - Concedida a oficiais brasileiros com a inscrição "Campanha Del Paraguay 1865-1870" e no reverso "A Las Virtudes Militares" na borda "Repúlica Oriental del Uruguay". 5 - Medalha dos Aliados - Contém a inscrição "República Argentina Al Ejercito Aliado En Operaciones Contra El Gobierno Del Paraguai" e no reverso "Al Valor Y La Constancia La Nacion Agradecida". Foi instituida para os militares do Brasil e Uruguay.

Oficiais brasileiros e fardamentos utilizados.

A história de Joaquim Sylvio nos remete aos anos em que, já havendo declarado guerra contra esse País, por conta de uma série de invasões ao solo brasileiro pelo exército paraguaio, o Imperador D. Pedro II - tendo em vista que as forças brasileiras estariam em número inferior, cerca de 18 mil homens do exército brasileiro contra 77 mil do Paraguai – lança uma campanha nacional de soldados voluntários, os “Voluntários da Pátria”.

O Imperador D. Pedro II em traje de campanha seguindo para o Paraguai.


É justamente neste ponto que a divergência entre historiadores se estabelece, pois a forma como foram recrutados esses “voluntários”, centenas deles escravos libertos pelo próprio governo imperial para lutar nessa guerra, é tida como um dos estopins do movimento que teria causado a queda do Império no Brasil. No entanto, não há divergência quanto ao fato de ser este o primeiro evento do gênero a ser registrado com a relativamente nova invenção, a “photographya”.
Com a mão na cintura o Conde D'Eu e à sua esquerda o Barão do Rio Branco,
em visita às tropas no Uruguai.

Mas voltemos ao nosso tema, com um novo título

”BAIANOS SERRINHENSES  NA GUERRA DO PARAGUAI”.

Capitão honorário do Exército Brasileiro, Joaquim Sylvio Ribeiro, nasceu em Serrinha – Bahia, aos 14 de abril de 1844 e faleceu em 3 de agosto de 1936 aos 92 anos.
Sempre citado com muito orgulho por seus descendentes, o fato mais marcante de sua vida se dá quando seu pai, Miguel Carneiro da Silva Ribeiro importante chefe político local, numa demonstração de extrema lealdade ao Imperador D. Pedro II e atendendo ao seu apelo, antes de abrir a tal convocação aos habitantes da região o alista e aos irmãos Antonio e Seabra, para integrarem as forças que combateriam na guerra declarada ao Paraguai.
Uma das batalhas em quadro de Pedro Américo.

Em outro quadro o sangrento combate corpo a corpo.

Joaquim Sylvio contava apenas vinte e um anos e seus irmãos eram igualmente jovens, sendo Seabra, o mais novo. Passam os três irmãos, junto com mais alguns poucos serrinhenses, a serem os representantes dessa terra na Guerra do Paraguai. Participam dentre outras, da campanha do Uruguay, com destaque para a batalha do Tuiuty e a invasão de Corrientes, em 25 de maio de 1865, duas das mais violentas.
Pelotões em preparativos para combate.

Nos combates que se seguem, centenas de jovens brasileiros tombam feridos mortalmente, mas muitos deles perecem em conseqüência de doenças contagiosas, dentre eles Seabra Carneiro Ribeiro que morre após contrair malária. Os lugares onde se dão os embates são extremamente insalubres, como os charcos (pântanos) uruguaios.

A artilharia em posição de tiro enquanto avança a infantaria.

Os aliados compartilham a mesma trincheira.

Raros momentos de descontração entre os aliados.

O inverno na região é rigoroso, chegando as temperaturas a cair rápida e freqüentemente a vários graus abaixo de zero, com incidência de fortes geadas e até neve. Uma dessas quedas abruptas teria dizimado um pelotão inteiro, formado por pernambucanos em sua maioria, e por não estarem devidamente preparados todos morreram vítimas do frio inclemente, segundo consta em registro feito por um dos comandantes militares e que pode ser consultado no Instituto Histórico da Bahia, sem que tivessem ao menos tido tempo de participar de algum combate. Igualmente despreparados, os paraguaios capturados se pareciam mais com mendigos que soldados. Dentre eles haviam índios que somente falavam Guarany e por certo nem sabiam porque estavam envolvidos nesse conflito.

Prisioneiros paraguaios - maltrapilhos e muitos até descalços.

Indios paraguaios e suas famílias, mulheres e crianças, que os acompanhavam.

Outros tantos são feridos, a exemplo de Joaquim Sylvio, que por essa razão é hospitalizado sendo duas vezes com mais seriedade. Esse conflito se arrasta ceifando jovens vidas despreparadas militarmente de ambos os lados até o ano de 1870, quando a 1º de março o ditador paraguaio Solano Lopes é morto em combate o que faz as forças paraguaias capitularem.

A rendição paraguaia em litogravura de Pedro Américo.

A participação dos Voluntários da Pátria, assim com a de Joaquim Sylvio e seus irmãos foi reconhecida pelo Imperador, com as merecidas homenagens. Ele recebeu aquelas cinco condecorações, dentre as quais destaca-se a do centro, em prata e que traz a efígie de D. Pedro II. Essa medalha foi criada por decreto de 28/06/1865 e foi destinada aos brasileiros, que se destacaram durante a Campanha do Uruguay. Infelizmente não conseguimos localizar dados sobre Antonio Carneiro Ribeiro, mas fica aqui pelo menos a lembrança de seu nome.

Monumento aos Voluntários da Pátria existente em Santa Catarina.

Retornando para sua terra natal, Joaquim Sylvio Ribeiro casa-se em 07 de maio de 1870, com dona Francisca Murta, e o casal com seus muitos descendestes passa a habitar então, o sítio Maracassumé, um dos conjuntos arquitetônicos de estilo colonial, casa e capela,  mais bonito da região serrinhense.

Capela e adiante a casa do sítio Maracassumé em Serrinha - Bahia.

Assim como em Santa Catarina são lembrados com um bonito monumento, talvez um dia os filhos de Serrinha, Voluntários da Pátria, sejam homenageados como merecem e que seus feitos cívicos sejam tomados como exemplo pela juventude de sua terra.

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