sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O Brasil Vai à Guerra.

FEB na Segunda Guerra.

Voluntários para defesa da Pátria, nem tão voluntários assim, soldados brasileiros tiveram papel especial e de destaque no maior conflito mundial de todos os tempos. Em terra, no mar e no ar, jovens militares fizeram história, uma história que, assim como a daqueles que lutaram em defesa de nossos territórios contra os paraguaios, pouco é lembrada e tal qual aquele episódio para a grande maioria até desconhecida. Essa a razão de haver escolhido o assunto como tema.
1942

  foi o ano em que o governo de Getúlio Dorneles Vargas, finalmente decidiu participar do conflito que desde 1939 se alastrava na Europa e já envolvia vários países, juntando-se  àqueles que se haviam aliado para combater um inimigo comum, a Alemanha de Adolf Hitler reforçada com a aliança com a Itália de Mussolini. Essa deliberação, para muitos historiadores tardia, mas providencial, somente deu após 5 embarcações mercantes brasileiras terem sido destruídas dentro de nossas águas territoriais, por submarinos alemães, com a perda de mais de 600 vidas. Até então o governo permanecia em estado de neutralidade diante do que vinha acontecendo, ainda que as pressões internas e externas, principalmente por parte dos Estados Unidos, fossem crescentes para que uma decisão fosse tomada, qualquer que fosse ela.

Assustadora primeira página do jornal O Globo em 1942.

Em 1939 no primeiro "arranha-céu" de Curitiba tremulavam lado a lado
as bandeiras do Brasil e Nazista - alí funcionava um consulado alemão.

Diante dessas agressões e da permissão para que forças americanas ocupassem grande parte da costa nordestina e a ilha de Fernando de Noronha como base para militar de apoio, que naturalmente transformavam a região em alvo militar nazista, tais ofensivas visavam impedir os aliados de receber suprimentos vitais para se manter em combate. A série de torpedeamento de cargueiros nacionais por submarinos identificados como ítalo-alemães, foi decisivo para que o Governo mobilizasse forças para participar daqueles combates. As oposições a essa iniciativa, simpatizantes brasileiros do regime fascista, pejorativamente denominados de “quinta-colunas”, afirmava que em verdade essas agressões teriam partido de submarinos anglo-americanos, interessados em que o Brasil deixasse a posição de neutralidade e entrasse no conflito juntando-se aos aliados.

1943 - O porto da Cidade do Salvador abriga a Armada brasileira.
Em plano médio, no terreno vazio, está hoje a Agência Centro do Banco do Brasil.

O Brasil declarou guerra à Alemanha Nazista e à Itália Fascista apenas em 22 de agosto de 1942, portanto quase três anos depois de iniciado o conflito. Mesmo depois disso e somente sofrendo forte pressão da opinião pública as Forças Armadas são mobilizadas para que seja enviado um contingente militar para as linhas de combate. E janeiro daquele ano o presidente Vargas reuniu-se em Natal, capital do Rio Grande do Norte, com o presidente americano Roosevelt para acertar detalhes da cooperação militar entre os dois países e desse encontro nasce a Força Expedicionária Brasileira, a FEB. Primeiramente constituída por uma divisão de infantaria, a denominação acabou abrangendo as demais armas, criando um símbolo e adotando o lema “A cobra está fumando” em alusão ao que se diziam àquela época os simpatizantes do nazi-fascismo de que era “mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra!”.

O símbolo que os militares brasileiros passaram a ostentar
com orgulho e determinação

Com o mesmo tema surgiram variações. A primeira feita
por Walt Disney e a outra por mim mesmo.

Recrutamento, treinamento e preparativos das tropas, que iriam dispor de equipamentos e armamentos modernos importados dos Estados Unidos, tomaram muito tempo. Apenas em julho de 1944, o primeiro escalão da recém criada FEB, sob o comando do general Mascarenhas de Morais, constituído de pracinhas recrutados em todas as regiões do País, embarca com destino ao porto de Nápoles, já em mãos dos aliados. Embora se imaginasse que o plano original seria o de combater os alemães no norte da África, os soldados brasileiros secretamente foram designados para dar combate aos exércitos inimigos em território italiano. Constituindo uma das vinte divisões presentes na frente italiana, os pracinhas brasileiros se viram diante de uma verdadeira “torre de Babel”, tal a diversidade de origens dos demais combatentes. Havia americanos de origens diversas, como afro e nipo-descendentes, italianos antifascistas, exilados europeus dentre eles poloneses, tchecos e gregos, tropas coloniais britânicas e francesas em uma diversidade étnica inimaginável, todos com um só objetivo, o de impedir a progressão do regime nazi-fascista na Europa e por conseqüência no resto do mundo.
A Marinha Brasileira transportando os pracinhas para a Itália.

Primeiras tropas desembarcam em Nápoles.

Integrada ao 4º Corpo do Exército Estadunidense, a FEB entrou em combate em meados de setembro de 1944, demonstrando que mesmo com pouco preparo a coragem de seus homens seria fundamental em combate. Nesse mesmo mês ocorrem suas primeiras vitórias com as tomadas de Massarosa, Camaiore e Monte Prano. Também ocorreram as primeiras baixas nas fileiras brasileiras, mas nada disso impediu a progressão das frentes de combate, tendo sido na praticamente inexpugnável linha alemã postada no Monte Castelo, uma de suas mais importantes  posições táticas inimigas, que a FEB protagonizou uma de suas mais dramáticas quanto valorosa vitória. Diante do Monte castelo os brasileiros viveram quase metade do tempo em que estiveram em campanha na Itália. As condições topográficas impediam a utilização de carros de combate e o tempo adverso, prenuncio de inverno rigoroso, dificultava a utilização da Força Aérea.

Entricheirados brasileiros se encontram diante do fogo inimigo.

Pracinhas em marcha para a tomada de Monte Castelo.

Artilharia pesada cuidadosamente preparada para combate.

Terreno acidentado dificulta as ações de combate, mas a determinação
supera os obstáculos encontrados.

Somente em fevereiro de 1945 cairia definitivamente a posição alemã em Monte Castelo, que apesar das muitas baixas se tornou motivo de orgulho para todos os militares brasileiros. Os combates prosseguiriam até a conquista de Montese em 15 de abril daquele ano, tendo um general americano dito que com o brilho de tais feitos, “as divisões brasileiras estão em condições de ensinar às outras, como se conquista uma cidade!”. Em Montese onde se deu o mais sangrento dentre os combates da Força Expedicionária Brasileira houve o maior número de baixas. Houve também o maior número de prisioneiros alemães e onde enfrentaram a maior concentração da artilharia inimiga. Em Montese os pracinhas tiveram sua mais festiva acolhida.

Comandante alemão se rende ao Exército Brasileiro.

Diante dos perplexos alemães um genuíno brasileiro faz a guarda do
campo de concentração de seus prisioneiros.

Raro momento de descontração após tomada do Monte Castelo ao fundo.

Somente em fevereiro de 1945 cairia definitivamente a posição alemã em Monte Castelo, que apesar das muitas baixas se tornou motivo de orgulho para todos os militares brasileiros. Os combates prosseguiriam até a conquista de Montese em 15 de abril daquele ano, tendo um general americano dito que com o brilho de tais feitos, “as divisões brasileiras estão em condições de ensinar às outras, como se conquista uma cidade!”. Em Montese onde se deu o mais sangrento dentre os combates da Força Expedicionária Brasileira houve o maior número de baixas. Houve também o maior número de prisioneiros alemães e onde enfrentaram a maior concentração da artilharia inimiga. Em Montese os pracinhas tiveram sua mais festiva acolhida.
Nova marcha forçada, agora na direção de Montese.

Dois momentos da entrada em Montese.

Pelotão em avanço cuidadoso para surpreender as forças inimigas.

Terminada a batalha, o carinho dos habitantes da região.

A vitória brasileira em Montese foi episódio importante para acelerar o fim da guerra, pois possibilitou o avanço do V Exército americano, principalmente após nova incursão através de Parma, sobre os inimigos nas cercanias de Fornovo impedindo o deslocamento de tropas ítalo-germânicas que iriam reforçar as posições recentemente tomadas. Cercados, não restou outra saída senão a rendição dessas tropas aos homens da FEB. Ao todo foram capturados cerca de 14.800 soldados, entre alemães e italianos, além de equipamentos e armamentos diversos.
Diretamente nesse combate o Brasil teve cerca de quatrocentos e cinqüenta pracinhas e treze oficiais mortos, além de oito aviões e pilotos da Força Aérea Brasileira abatidos. Dos cerca de vinte e cinco mil homens que compunham a divisão brasileira, houve em torno de duas mil mortes devido a ferimentos de combate e mais de doze mil baixas em campanha, por mutilação ou outras diversas causas que os incapacitaram para a continuidade no combate.
O desfile dos Heróis da Pátria que retornaram da Itália
ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Aos 462 Pracinhas que pereceram em combate o acolhimento do solo italiano
no Cemitério de Pistóia.

Em junho de 1960, partiu para Pistóia, uma Comissão Nacional com a incumbência de proceder a exumação dos 462 corpos existentes no Cemitério Brasileiro e prepará-los para o translado para o Brasil, sendo que no mesmo local, em substituição aos túmulos, se ergueu um monumento votivo. Teria sido do Marechal Mascarenhas de Moraes o esforço para essa remoção, ato de repatriamento dos mortos da FEB, como relata em suas memórias: “Minha obra de Comandante da FEB ficaria incompleta se não trasladasse para o Brasil os despojos dos que tombaram na campanha da Itália. Eu os levei para o sacrifício, cabia a mim trazê-los de volta para receberem as honras e a glória de todos os brasileiros.” Um belo gesto de reconhecimento do sacrifício de jovens soldados, que infelizmente é pouco lembrado por nossa gente. Em todos os estados da federação há monumentos ou os panteões onde se enaltece os feitos daqueles bravos jovens que fizeram parte desse triste, mas ao mesmo tempo importante momento de nossa história. No Rio de janeiro o belo Monumento aos Pracinhas, e o túmulo do soldado desconhecido é um dos mais belos em solo brasileiro.

Monumento Votivo erguido no local em que haviam sido enterrados
os Pracinhas da FEB.

Mural do Monumento Votivo que homenageia
nossos conterrâneos mortos em combate

Singelo Panteão em memória aos Pracinhas em Lapa, pequeno
município paranaense que teve filhos mortos em campanha.

A Força Expedicionária Brasileira homenageada em Porto Alegre.

O belo e emocionante Museu Casa do Expedicionário em Curitiba.

Lápide em homenagem aos paranaenses que pereceram em combate.

O belo Monumento aos brasileiros das três Armas que tombaram.
Internamente estão sepultados os que foram trazidos de Pistóia.

Em oportuna postagem estaremos relatando um pouco do que foi a heróica e corajosa missão da Força Aérea Brasileira nos céus do palco de guerra.

Imagens de sites e blogs
diversos via google search.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Brasão dos Nogueira - Apenas esclarecendo.

Estava preparando uma nova postagem quando me dei conta de que algumas pessoas haviam me perguntado da razão de utilizar uma espécie de escudo com a letra “N” em destaque, como forma de me identificar aqui no blog e nos demais modos de comunicação pela internet. Até então não havia respondido, mas diante da curiosidade dessas pessoas que merecem minha atenção, farei um breve esclarecimento, deixando o assunto que preparava para a próxima postagem.
N

 de Nogueira era a letra que havia, tal qual está representada, em um escudo existente na platibanda da fachada da casa de Antonio Rodrigues Nogueira, ao lado do Sobrado de seu filho Luiz, na principal praça da cidade de Serrinha - Bahia. Quando foi intendente, Luiz promoveu algumas mudanças urbanas na cidade, dentre elas a exigência de que fossem construídas essas platibandas em todas as residências, cujos telhados avançavam sobre as fachadas das mesmas. Objetivava com isso evitar possíveis acidentes causados pela queda de telhas sobre as pessoas que passavam, além de eliminar o derramamento de águas da chuva, que mesmo não muito freqüente na região, incomodavam os que transitavam pelas calçadas. Seu pai então, para dar exemplo, fez sua parte e mandou erigir na platibanda esse ornamento que também identificava o morador daquela residência.

O Sobrado de Luiz e a casa de seu pai com o escudo sobre a platibanda.
Foto em 1917.

Quando da realização do histórico familiar, escolhi para colocar em sua capa o mesmo escudo, embora houvesse pensado antes no brasão dos Nogueira, mas esse seria apenas ilustrativo já que não havia, como não há, confirmação de que pertença aos Nogueira dos quais descende minha família serrinhense. Desde então tenho utilizado esse escudo como uma espécie de logomarca para me identificar em toda e qualquer forma de comunicação, ao invés de uma foto pessoal ou outro tipo de imagem. Essa casa ainda existe e o próprio Antonio a vendeu assim que sua mulher faleceu, mudando-se para a Capital. Segundo o que nos contavam, Miroró – casado com dona Lieta uma simpaticíssima figura -, o novo proprietário, assim que realizou o negócio e teve em mãos a documentação que lhe dava “mansa e pacífica posse” do imóvel, como primeira providência e pessoalmente, teria removido a marteladas a letra que identificava o antigo proprietário. Fato ou folclore, não importa, o que fica é o registro de mais um episódio que faz parte de minha história de família.

Brasão dos Nogueira em Portugal - de acordo com o "Livro do Armeiro-Mór"

A arte do escudo que havia sobre a casa de Antonio R. Nogueira.

Concluindo, esclareço que Antonio foi meu bisavô paterno; veja postagens sobre a família Nogueira de Serrinha que fiz em dezembro de 2010.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Ruy Barbosa - Um quadro com História

Tenho colocado aqui alguns assuntos que são geralmente ilustrados com fotos, algumas delas feitas por mim mesmo, outras extraídas de páginas da internet sempre com o devido cuidado de identificar sua autoria. Todas as formas de representação que possam de algum modo valorizar o tema proposto, afinal é voz geral que “uma imagem vale mais que mil palavras”, as tenho utilizado e não somente fotos, mas também desenhos ou reproduções de pinturas famosas, ou nem tanto, sempre que tenha algo a ver com o assunto.

Por demais conhecida a história da origem desse majestoso mausoléu, o Taj Mahal.

Guernica a obra de Picasso foi fruto de sua dor diante do sofrimento
de seus conterrâneos.

Estou certo de que cada autor, seja de uma foto ou de determinado trabalho colocado em tela, terá alguma coisa a dizer do impulso que o levou a realizar sua obra. A foto é fruto de um momento único em que alguém com uma câmera na mão - fantástica invenção que evoluiu inimaginavelmente - que  se sente atraído naquele instante por alguma coisa à sua frente e cuja imagem resolve “aprisionar” para posteriormente relembrar ou compartilhar com outras pessoas, sem falar dos inúmeros registros de acontecimentos felizes ou trágicos do cotidiano.

A tranquilidade e beleza refletida nas águas de um oásis...

...e o ponto luminoso resplandescente no horizonte do deserto são momentos únicos,
capturados pela câmera de quem foi tocado por essas visões.

Jovem arquiteto trabalhando na Líbia, Cássio Costa Nogueira aproveita os momentos de folga para conhecer outros lugares e com uma câmera e seu olhar atento, fez essas imagens no deserto do Sahara e as compartilhou conosco. Confesso que sou fã desse sobrinho “arquitógrafo” no que se refere aos momentos em que está diante de um pôr-do-sol e o “aprisiona” com toda a beleza. Já no caso das obras aplicadas em telas, painéis, murais, objetos os mais diversos, com certeza absoluta podem ser fruto apenas da imaginação de seu criador, ou então resultado do desejo de outros em ter uma imagem exclusiva, de si mesmo, de algum lugar ou até de alguém que admira.

Tela de Vladimir Kush pintor russo de imagens impossíveis ou “realismo metamorfose”.

Obra de John Pug e seus murais interessantes.

Canecas com impressão de desenhos de Luiz Nogueira.


Seja qual for o objetivo de cada uma dessas manifestações, haverá sempre uma história sobre a razão de ter sido elaborada. É justamente uma dessas histórias que escolhi como tema para esta postagem.
Creio que o personagem retratado a seguir é bastante conhecido de todos nós, pois se trata de um dos brasileiros mais importantes em nosso País.

Ruy Barbosa de Oliveira - Jurista, Político, Diplomata e Escritor,
um dos intelectuais mais brilhantes de seu tempo, foi também, Deputado, Senador e
Ministro da Fazenda.


Ruy Barbosa, assim como seus feitos e importância no contexto histórico nacional, dispensa maiores comentários, mas uma de suas imagens mais conhecidas, um quadro pintado a óleo sobre tela, que aparece publicada em livros didáticos ou qualquer notícia relacionada com ele, essa sim, tem uma origem que vale a pena ser contada.
Foi no dia 5 de março de 1923 que uma nota no jornal da capital baiana “A Tarde”, em virtude da morte desse grande jurista, dava conta da existência desse quadro que o retratava. No canto inferior esquerdo da segunda página daquele periódico, em meio a tantas outras manifestações de condolências, uma delas convidava o povo baiano a prestar sua derradeira homenagem ao conterrâneo ilustre, diante de uma bela pintura exposta ao público no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.

O Quadro com História.

A nota no jornal fazia referência ao artista Lucílio de Albuquerque como autor daquela obra e apenas a certo Dr. Nogueira como sendo o doador dela ao IGHB. É evidente que naquele triste momento maiores detalhes sobre a origem desse quadro foram omitidos. Anos depois disso, diante da ignorância involuntária dessas informações àqueles que buscavam tais detalhes, ficamos sabendo que o pintor, pernambucano e professor da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, a quem foi pago a quantia de Rs. 3.000$000 (três contos de réis), foi escolhido entre outros artistas que atenderam a um anúncio em antigo jornal do Rio de Janeiro. Para nossa surpresa tal anúncio havia sido mandado publicar por Miguel Carneiro Rodrigues Nogueira, jovem médico baiano natural de Serrinha, correligionário e amigo particular de Ruy Barbosa que, a despeito do apoio dado a seu adversário político por seu pai Antonio R. Nogueira durante a eleição presidencial de 1910, o tinha como seu ídolo.

Miguel Nogueira e sua esposa Anita.

Originalmente, e de acordo com o objetivo de Miguel Nogueira, esse quadro deveria compor em sua época, dezembro de 1916, a galeria de personagens importantes do Senado Federal no Rio de Janeiro, sede do Poder Executivo da República nos anos de 1897 a 1960. Devido a contratempos não somente de ordem burocrática mas principalmente política, seu objetivo não foi alcançado. Por fim o quadro foi doado por ele ao Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e está lá para ser apreciado até os dias de hoje.

Em recente visita que fiz ao IGHB foi possível ver de perto esse quadro.
Na ocasião fiz chegar às mãos de sua diretora Consuelo Pondé de Sena
um pequeno encarte com o histórico completo da obra
que Dr. Miguel Nogueira mandara executar.



sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Os "Voluntários da Pátria".

Sem

  a pretensão de dar a esse tema o aspecto de uma aula de história, mas tão  somente por achá-lo interessante e de certo modo pouco conhecido em alguns detalhes pela maioria dos brasileiros de um modo geral, o estou abordando.
Tampouco pretendo entrar no mérito das questões que levaram o nosso País a se unir com a Argentina e o Uruguai para se confrontar com o vizinho Paraguai, episódio sobre o qual apesar de existir uma versão oficial, há entre os estudiosos do assunto muita divergência. Uma coisa é certa, foi um dos conflitos armados que envolveu quatro países da América do Sul, até hoje considerado um dos mais violentos e que teria ceifado milhares de vidas de todos os lados.

Batalha do Riachuelo - a emboscada paraguaia que não deu  certo.

Corveta Parnahyba uma das embarcações utilizadas pelo Brasil.

De concreto sabemos que em quase todas as capitais e em muitos municípios do Brasil existe um logradouro, nem todos muito importantes, com esse nome, “Voluntários da Pátria”, mas tenho certeza de que poucos têm notícia de quem foram eles, como indivíduos, como pessoas. Na verdade, estou utilizando-me do tema como motivo para dar fisionomia a pelo menos um daqueles voluntários e seus irmãos.

Joaquim Sylvio Ribeiro - um Voluntário da Pátria.

No verso desta raríssima foto, com as condecorações por sua participação na Guerra do Paraguai encontramos a seguinte descrição redigida por um de seus filhos; “Joaquim Sylvio Ribeiro. Capitão Honorário do Exército. Assentou praça como 1º Cadete do 1º Regimento de Voluntários da Pátria a 31 de janeiro de 1875, seguindo para a guerra do Paraguai; a prova dos seus serviços traz sobre seu peito, e ocultas 5 cicatrizes por ferimentos recebidos em combate.”

As Medalhas recebidas por Joaquim Sylvio Ribeiro.

1- Medalha Imperial - por atos de heroismo e ferimentos sofridos em combate, razão da fita vermelha que a sustenta. 2 - Medalha Geral de Campanha - Em formato da Cruz de Malta, teria sido cunhada em bronze dos canhões tomados dos paraguaios, a fita representa a Tríplice Aliança. 3-Medalha da Campanha do Uruguai - Em prata com a efígie de D. Pedro II na frente e no reverso uma coroa Imperial com a inscrição "Campanha do Uruguai-1865". 4 - Medalha Sol de Prata - Concedida a oficiais brasileiros com a inscrição "Campanha Del Paraguay 1865-1870" e no reverso "A Las Virtudes Militares" na borda "Repúlica Oriental del Uruguay". 5 - Medalha dos Aliados - Contém a inscrição "República Argentina Al Ejercito Aliado En Operaciones Contra El Gobierno Del Paraguai" e no reverso "Al Valor Y La Constancia La Nacion Agradecida". Foi instituida para os militares do Brasil e Uruguay.

Oficiais brasileiros e fardamentos utilizados.

A história de Joaquim Sylvio nos remete aos anos em que, já havendo declarado guerra contra esse País, por conta de uma série de invasões ao solo brasileiro pelo exército paraguaio, o Imperador D. Pedro II - tendo em vista que as forças brasileiras estariam em número inferior, cerca de 18 mil homens do exército brasileiro contra 77 mil do Paraguai – lança uma campanha nacional de soldados voluntários, os “Voluntários da Pátria”.

O Imperador D. Pedro II em traje de campanha seguindo para o Paraguai.


É justamente neste ponto que a divergência entre historiadores se estabelece, pois a forma como foram recrutados esses “voluntários”, centenas deles escravos libertos pelo próprio governo imperial para lutar nessa guerra, é tida como um dos estopins do movimento que teria causado a queda do Império no Brasil. No entanto, não há divergência quanto ao fato de ser este o primeiro evento do gênero a ser registrado com a relativamente nova invenção, a “photographya”.
Com a mão na cintura o Conde D'Eu e à sua esquerda o Barão do Rio Branco,
em visita às tropas no Uruguai.

Mas voltemos ao nosso tema, com um novo título

”BAIANOS SERRINHENSES  NA GUERRA DO PARAGUAI”.

Capitão honorário do Exército Brasileiro, Joaquim Sylvio Ribeiro, nasceu em Serrinha – Bahia, aos 14 de abril de 1844 e faleceu em 3 de agosto de 1936 aos 92 anos.
Sempre citado com muito orgulho por seus descendentes, o fato mais marcante de sua vida se dá quando seu pai, Miguel Carneiro da Silva Ribeiro importante chefe político local, numa demonstração de extrema lealdade ao Imperador D. Pedro II e atendendo ao seu apelo, antes de abrir a tal convocação aos habitantes da região o alista e aos irmãos Antonio e Seabra, para integrarem as forças que combateriam na guerra declarada ao Paraguai.
Uma das batalhas em quadro de Pedro Américo.

Em outro quadro o sangrento combate corpo a corpo.

Joaquim Sylvio contava apenas vinte e um anos e seus irmãos eram igualmente jovens, sendo Seabra, o mais novo. Passam os três irmãos, junto com mais alguns poucos serrinhenses, a serem os representantes dessa terra na Guerra do Paraguai. Participam dentre outras, da campanha do Uruguay, com destaque para a batalha do Tuiuty e a invasão de Corrientes, em 25 de maio de 1865, duas das mais violentas.
Pelotões em preparativos para combate.

Nos combates que se seguem, centenas de jovens brasileiros tombam feridos mortalmente, mas muitos deles perecem em conseqüência de doenças contagiosas, dentre eles Seabra Carneiro Ribeiro que morre após contrair malária. Os lugares onde se dão os embates são extremamente insalubres, como os charcos (pântanos) uruguaios.

A artilharia em posição de tiro enquanto avança a infantaria.

Os aliados compartilham a mesma trincheira.

Raros momentos de descontração entre os aliados.

O inverno na região é rigoroso, chegando as temperaturas a cair rápida e freqüentemente a vários graus abaixo de zero, com incidência de fortes geadas e até neve. Uma dessas quedas abruptas teria dizimado um pelotão inteiro, formado por pernambucanos em sua maioria, e por não estarem devidamente preparados todos morreram vítimas do frio inclemente, segundo consta em registro feito por um dos comandantes militares e que pode ser consultado no Instituto Histórico da Bahia, sem que tivessem ao menos tido tempo de participar de algum combate. Igualmente despreparados, os paraguaios capturados se pareciam mais com mendigos que soldados. Dentre eles haviam índios que somente falavam Guarany e por certo nem sabiam porque estavam envolvidos nesse conflito.

Prisioneiros paraguaios - maltrapilhos e muitos até descalços.

Indios paraguaios e suas famílias, mulheres e crianças, que os acompanhavam.

Outros tantos são feridos, a exemplo de Joaquim Sylvio, que por essa razão é hospitalizado sendo duas vezes com mais seriedade. Esse conflito se arrasta ceifando jovens vidas despreparadas militarmente de ambos os lados até o ano de 1870, quando a 1º de março o ditador paraguaio Solano Lopes é morto em combate o que faz as forças paraguaias capitularem.

A rendição paraguaia em litogravura de Pedro Américo.

A participação dos Voluntários da Pátria, assim com a de Joaquim Sylvio e seus irmãos foi reconhecida pelo Imperador, com as merecidas homenagens. Ele recebeu aquelas cinco condecorações, dentre as quais destaca-se a do centro, em prata e que traz a efígie de D. Pedro II. Essa medalha foi criada por decreto de 28/06/1865 e foi destinada aos brasileiros, que se destacaram durante a Campanha do Uruguay. Infelizmente não conseguimos localizar dados sobre Antonio Carneiro Ribeiro, mas fica aqui pelo menos a lembrança de seu nome.

Monumento aos Voluntários da Pátria existente em Santa Catarina.

Retornando para sua terra natal, Joaquim Sylvio Ribeiro casa-se em 07 de maio de 1870, com dona Francisca Murta, e o casal com seus muitos descendestes passa a habitar então, o sítio Maracassumé, um dos conjuntos arquitetônicos de estilo colonial, casa e capela,  mais bonito da região serrinhense.

Capela e adiante a casa do sítio Maracassumé em Serrinha - Bahia.

Assim como em Santa Catarina são lembrados com um bonito monumento, talvez um dia os filhos de Serrinha, Voluntários da Pátria, sejam homenageados como merecem e que seus feitos cívicos sejam tomados como exemplo pela juventude de sua terra.